- "Abjeu, tu nem sabes o que aconteceu!?" Perante rima tão elaborada, vi-me obrigada a, muito custo, abrir os olhos e balbuciar algo do género - "einnnn, que foiiiii...? Estava a dormir, o que é que eu fiz?", ao que a voz do outro lado diz - "Tu não fizeste nada, mas acreditas que estava a sair do elevador e encontro um policia a dizer que era melhor eu não sair?", e eu, ainda meia a dormir e meia a sonhar com estrelas do mar e cavalos marinhos, remato - "A sério? Não me digas que era o X vestido de policia que queria "prender-te" no elevador?"...fez-se silêncio, ouço um som em tom de suspiro (mas pouco doce esse suspiro), e depois a voz faz-se de novo ouvir e, calmamente explica - "antes fosse, mas não...bem pior (sim, porque o X também não é lá grande coisa) mataram uma mulher no hall de entrada do prédio onde moro". Como se pode imaginar, e como boa cusca que sou, seguem-se as perguntas da praxe: Quem? Como? Quando? Onde? Porquê? Ao que a minha amiga, vai respondendo:
- Quem? Foi um homem de 40 anos que matou a "ex-mulher" de 34 que tinha, pelo menos, dois filhos;
- Como? Com uma arma (não se sabe o calibre, mas do homem em causa dá para imaginar) que disparou dois tiros no peito da mulher;
- Quando? Dizem que foi por volta das 5 e pouco da manhã de hoje, quando a mulher estava a sair para o trabalho;
- Onde? "aiii, já disse que foi no hall do prédio onde moro", ao que eu digo "sim, mas em que sitio exactamente?"...não obtive resposta, mas ainda estou à espera, porque isso é um dado importantissimo!;
- Porquê? Segundo o senhor do café, que ouviu dizer por uns vizinhos ou sabe-se lá por quem, já era hábito alguma violência doméstica e a propria vitima, que agora já não é mais vitima mas sim cadáver, já havia denunciado às autoridades (in) competentes as várias ameaças feitas pelo ex-marido.
Pequeno-almoço no buxo, trabalho realizado, dou por mim a pensar na história da mulher que foi brutalmente assassinada pelo ex-marido e fico revoltada, e ainda estou revoltada...e vejamos o porquê da minha revolta revoltada:
1. Com o homem, o assassino: por julgar que a mulher é um objecto com reserva de propriedade; por ter sido cobarde ao ponto de dar dois tiros (um tiro ainda percebia, agora dois?) num “objecto” que já não lhe pertencia, como nunca pertenceu ; Por ter deixado dois filhos ao Deus dará; por não ter amor próprio para continuar com a sua vida sem a mulher; por ser um infeliz que pensava mais na fémea do que em si próprio e nas suas crias; e por ser um autêntico animal selvagem numa sociedade onde já há cursos de domesticação de animais, entre outras coisas que agora não me ocorre...
2. Com a mulher, a vitima : pela sua burrice, ou quem sabe “esperteza saloia”, na escolha do homem com quem casou e com quem, supostamente, teve filhos; por não ter dado dois tiros na cabeça do marido, ou ex-marido, assim que começou a ser ameaçada. Sim, na cabeça…sempre se podiam aproveitar alguns órgãos para salvar vidas de inocentes;
3. Com as autoridades, os (in) competentes: por conhecerem o historial e, muito provavelmente, terem feito ouvidos moucos e quiçá até beberem uns canecos com o assassino e ainda lhe darem razão na sua teoria; por a pena estabelecida, muito provavelmente, passar por uns anos na cadeia e depois soltarem o assassino por bom comportamento ou distúrbios mentais;
4. Com o governo, o gestor dos (in) competentes: por não fomentarem uma mente aberta dos portugueses e residentes estrangeiros legais (os ilegais que voltem para o país deles porque também não fazem cá falta); por não definirem uma pena que obrigue os criminosos a trabalhar (limpar as matas era uma solução, entre tantos outros trabalhos - Monsanto, o pulmão de Lisboa, como surgiu?
5. Com a sociedade, puritana, conservadora e possessiva: uma mulher é de um homem, e vice-versa, até quando ambos quiserem e assim o desejarem - o amor quer-se livre e, como diz uma música “ninguém é de ninguém”...é assim tão difícil de aceitar que mais vale perder uma mulher ou um homem do que tudo?
6. Comigo, que não tenho nada a ver com a história: porque continuo a contribuir para uma cambada de coitadinhos (desempregados que não querem trabalhar e pouco ou nada fizeram para a produtividade do país, pessoas que recebem o rendimento mínimo sem nunca terem descontado e para os criminosos que vão para a cadeia alimentarem-se das minhas migalhas que tanta falta me fazem); por ter que partilhar a minha cama com a minha amiga porque ela não se sente confortável em voltar para casa.
7. E por fim, mas não menos culpada, com a força divina, ordem suprema: que ficou de braços cruzados perante toda esta tragédia .
Não, não tenho pena nem qualquer tipo de compaixão por quem foi morto ou preso - quem morreu já não sofre e quem foi preso que sofra o suficiente, que nenhum sofrimento para ele será suficiente, mas sinto uma enorme compaixão por quem cá ficou a sofrer pela perda sentida e não só, originada pela pura estupidez e ignorãncia de quem amavam.
A modos de terminar, e não querendo ferir susceptibilidades, espero que os leitores (se existirem e/ou conseguirem chegar até aqui) percebam o tom irónico e sarcástico com que me refiro a algumas situações, mas se não perceberem, azar…o vosso! :)
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
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É... a tua revolta revoltada está extremamente bem fundamentada!
ResponderEliminarQuanto à parte do sujeito "pensar”, creio que ao animal em questão não foi atribuída essa característica. São histórias como esta, que por vezes me fazem acreditar que há animais ditos irracionais que são muito mais racionais e dotados de muito mais sensibilidade do que alguns seres a quem essa faculdade é oferecida.
Enfim...
E sim, acto de pura cobardia, inevitavelmente associada à cólera da besta!
Quanto à envolvente social, autoridades "distraídas", e possivelmente depois de alguns relatórios escritos e assinados e comentados, etc, etc... o resultado final do tremendo apoio a quem dele precisou está à vista.
Infelizmente casos como este são diários e frequentes, basta abrir um Jornal ou ouvir as notícias...
Haverá certamente estudos sociológicos sobre estes pseudo-fenómenos, e enquanto se estuda e analisa...vamos conhecendo as consequências! O que já não é nada mau, pelo menos estamos informados...dahhhhhhhhhhhhhh!
E tal como dizes, quase que se adivinha o desfecho deste drama, o animal vai dentro, mas como se calhar nunca mordeu ninguém, nunca defecou no passeio, não tem antecedentes e até é passível de ser amestrado, enjaulado não fica... ou então, alega-se uma qualquer insanidade momentânea, provocada por uma vida cheia de sofrimento e que fatalmente culminou no assassinato da senhora em questão...o animal é que não tem culpa nenhuma. Pergunto-me porque é que a covardia dele não fez com que, em vez de dar os dois tiros na senhora, desse um único disparo entre os seus próprios olhos? Poupava nas munições, a senhora continuava viva, não tinha sido necessária a intervenção da Policia, da PJ, médico legista, etc, etc, e nós não continuávamos a sustentar o quadrúpede. Sim! Porque quer o bicho vá preso, quer não, vai continuar a ser alimentado por todos aqueles que trabalham... para ele! E assim vamos andando!
Quanto à ironia e sarcasmo que utilizaste aqui e ali...concordo...azar o de quem não o entendeu!
Agora vou ali ver/ler um dos outros tópicos que escreveste.
Sofia Mora
Vocês duas são um perigo! Ui!
ResponderEliminarBem se calhar a filha é que devia ter morto os 2! Ela se calhar já n gostava do ambiente em casa. Assim podia ir pra casa da avó que era uma maravilha de mulher. Menos bocas pra alimentar, e como era menor, n iria pra uma prisão e relativamente cedo poderia voltar ao "activo". Menos gastos com o estado e tal! Isso é que era! :P
- Renato