sexta-feira, 30 de outubro de 2009

L...de Lírios

Porque as minhas mãos se fecharam, os punhos desabrocharam nos lírios que floriam em vão, o corpo encolhido se contorce...se contorce e o rosto grita. Palavras ouvi-te dizer em íngreme escalada, a fúria solta e magoada sobre mim a correr... E, do plácido rio, a cratera fez-se de magma voraz, a calma falaz da tempestade cobrindo-se de algas venenosas. Mas já a claridade trouxera das pálpebras fendidas de uma molhada dor, a irisada flor, do inverno matizado de primavera...

Movo-me nas nubladas praias onde a amplitude se renova num gesto salgado: as ondas alargam-se num abraço apaixonado revelando a embriaguez da noite que beija a transparente nudez da matéria envolta em música.



Quero correr, ou somente caminhar na quietude das clareiras que se abrem como cálices de brilhantes lapidados. E, nesse movimento de pétalas polvilhadas com o pólen macio do teu corpo em flor, o nectar derramado a escorrer pela transparência das pálpebras semi-abertas e as abelhas dos nossos lábios a voarem da colmeia de um tempo construído com mel...

Acordo lentamente, abro os olhos devagarinho, estico os dormentes membros do corpo até me sentir renovada pela doce manhã. Mas hoje...hoje procurei nas distâncias renovadas o mistério do dia que errante se desdobrava nas curvilíneas madrugadas do meu corpo...e, a paz foi-se despindo de medos, procurando numa caricia a ternura suave dos teus dedos a deslizarem na minha pele...

Amar-te pela manhã com o corpo em fúria: o perfume da tua pele a banhar-se na seda da minha sede em botão...Amar-te simplesmente pela manhã: ver a luz a coar-se no mel dos teus olhos adocicando os meus...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

C...de Conflito

Há mulheres que evitam o conflito a todo o custo, mas não fariam melhor se aprendessem que um pouco de conflito não lhes faria mal? E os homens que habitualmente adoptam atitudes de confronto (segundo alguns estudos, claro ) , não fariam melhor se quebrassem a sua dependência do conflito? Quando o estilo de um dado individuo não funciona, tentar de novo e fazer mais do mesmo resolverá os problemas? Não me parece, muito pelo contrário...

Somos todos diferentes, é certo, não só em género mas em origens culturais, entre outras tantas características. Portanto, por mais que não queiramos e não nos adaptamos, as diferenças de atitude em relação à oposição verbal vão persistir entre amigos, amantes e estranhos. Mas são particularmente prováveis, e particularmente perturbadoras, nas relações a longo prazo, que são por natureza afectadas por questões de controlo e desejos conflituais. Jogar o jogo das relações em conjunto é mais difícil, quase impossível, se jogarmos com regras diferentes, ou se jogarmos jogos diferentes - hummm, nesses casos, o mais provável é darmos por nós a jogar ténis e futebol numa campo de golfe, com tacos de basebol...

Dado que o significado do conflito e os meios que parecem naturais para lidar com ele são fundamentalmente diferentes para mulheres e homens, esta é uma área em que os estilos de homens e mulheres são particularmente propensos a entrar em conflito. Perceber simplesmente que o que parece um comportamento injusto ou irracional pode ser o resultado de um estilo diferente ajuda, pelo menos, a reduzir a frustração…ou não, depende da dureza da cabeça . Os conflitos continuarão a existir, mas ao menos estaremos a discutir sobre verdadeiros conflitos de interesse e não sobre estilos de luta. Quem continua a insistir em discutir sobre estilos de luta, o mais certo é acabarem numa Luta de Galos - com galinhas, garnizés e afins à pancada, para mudarem apenas o nome deste estilo de luta. :)

O jogo que aconselho é o jogo do gato e do rato – é uma forma saudável para agirem com flexibilidade, e se aliarem uma alternância entre as personagens, melhor ainda.  :)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

B...de Beleza!

A beleza humana...
Muito tenho lido, como ouvido falar, aqui e em outros sítios, acerca de um conceito muito em voga, o conceito de beleza humana. É frequente este conceito gerar uma crítica activa aos sujeitos que possuem uma determinada característica convergindo para o conflito directo entre essas pessoas.

Regra geral, o que tenho observado são opiniões negativas, e na maioria dos casos feitas por figuras que supostamente valorizam a capacidade intelectual ou interior de um indíviduo, sobre a beleza física de outros. Verifico ainda que há pessoas com uma aparência agradável, que se julgam mais bonitas que as outras e utilizam essa característica para inferiorizarem as restantes...o que também acontece nas pessoas que consideram ter uma capacidade intelectual superior às demais. Lá está, a teoria de Darwin sempre actual: em que cada um utiliza os meios que considera mais fortes para provar a sua superioridade…e sim, em parte, defendo que cada um deve conhecer as suas potencialidades e tirar o máximo proveito delas, se isso não interferir com a liberdade de terceiros, como é óbvio!

A ideia que se tenta transmitir baseia-se essencialmente nos seguintes pressupostos: Se uma pessoa apresenta uma imagem física agradável, parte-se logo do princípio que a capacidade intelectual é diminuta, logo não pode ser uma pessoa "bela"! Se demonstra uma capacidade intelectual elevada, mesmo não possuindo grande beleza física, parte-se do princípio que é "bela"! E eu pergunto-me: mas que raios de pressupostos são estes, que critérios estão subjacentes à formulação destas ideias? São formulados com conhecimento de causa ou são apenas opiniões baseadas em ideias preconcebidas por pessoas com uma visão limitada do mundo e que, mesmo circulando numa auto-estrada com 5 faixas de rodagem, apenas vêem e circulam numa?

No entanto, para cúmulo do cúmulos, vejo muitas dessas mesmas pessoas, que criticam a beleza física e dizem apenas valorizar a intelectual ou interior, a preocuparem-se com a aparência física, a apresentarem uma representação física de si que não corresponde à realidade, a seleccionarem e a colocarem as melhores fotos, muitas vezes trabalhadas de modo a corrigir as "imperfeições" físicas. Perante isto, pergunto-me frequentemente: Se as pessoas dizem valorizar apenas a beleza intelectual ou interior do ser humano porque é que se esforçam tanto para atribuírem um qualquer valor à sua própria imagem exterior, mostrarem uma imagem que não é a sua, valorizarem e preocuparem-se com algo que condenam e criticam nos outros?

A beleza humana, a meu ver, não é e muito menos deverá ser entendida apenas pela aparência física, bem como não deve ser entendida apenas pela capacidade intelectual ou "interior" de um ser. A beleza humana assenta num conjunto de características, numa panóplia de variáveis internas e externas que definem um determinado indíviduo. Contudo, infelizmente, poucos têm esta capacidade de entendimento e vêem a beleza por um canudo e, quando deixa de haver canudo, lá se vai a beleza e começa-se a procurar novo canudo, nova beleza.... Posto isto e sendo a beleza uma percepção individual e, como sabemos, essa percepção ser influenciada por diversos factores, é fundamental que qualquer avaliação sobre a beleza de um qualquer ser humano seja feita em consciência - consciência de si próprio e dos factores inerentes à avaliação efectuada.

Para mim, a beleza encontra-se na simetria das formas, nas relações e formas espontâneas que existem na natureza. Já a beleza humana apresenta-se no equilíbrio que existe entre a forma e o conteúdo do Homem, na intensidade do olhar e na doçura do sorriso, na inocência e espontaneidade das crianças, nos valores e ideais que um individuo defende, na integridade do comportamento que cada um adopta perante o outro e na honestidade dos sentimentos que transmite...

Portanto, dizer que não valorizo a beleza física, em determinadas situações, era simplesmente estar a ser hipócrita e, dizer o contrário, a mesma coisa. A não beleza, vejo-a nos Homens injustos (de acordo com o meu conceito de justiça, óbvio), em quem fala só por falar sem se dar ao trabalho de tentar perceber e conhecer a outra parte, em quem não segue os seus ideiais, nos seres vazios de valores, ou apenas em quem eu "veja" que não tem a maioria das características que valorizo e que associo à minha ideia de beleza....ideia essa em processo de melhoria contínua, pelo menos assim espero :)

As pessoas são diferentes mas também são iguais, são pessoas! Vivem e interagem num todo sistémico onde a individualidade de cada um deve ser respeitada...isso sim, é ser-se diferente sendo igual a si próprio! E, uma coisa é certa, a beleza física não é nem deverá ser determinante nas relações humanas e lamento que haja pessoas que se deixem levar por essa ideia. Quanto à beleza intelectual ou interior, bem, aí já não posso dizer o mesmo porque dificilmente me relacionaria com pessoas que não preenchem os requisitos que estabeleci e que definem a minha ideia de beleza humana...é, a beleza (tal como a maldade, está nos olhos de quem a vê...o importante, pelo menos para mim, é que cada um tenha a sua própria ideia, de preferência muito bem definida!

Por fim, três questões para reflexão: Se um individuo não sente beleza em si próprio (seja de que tipo for), saberá efectivamente o que é a beleza? Se não vê beleza em si, como poderá ter capacidade para percepcionar, avaliar e viver a beleza dos Outros? O problema estará efectivamente na beleza entendida ou é apenas um problema intrínseco a quem a percepciona?

D...de Despertar!

Ontem li algures que "os sentimentos não se lêem, escutam-se..." e, com esta ideia, com este sonho mais doce (não, não era o da Doris - apesar de aconselhar a leitura deste livro) a noite foi gentilmente deixada ao acaso: na transparência de um silêncio tranquilo, transmitido pela leve sensação de um sentir que se move, em todos os sentidos!

E, deliciada no meu imaginado mundo, voluteava-se, em minha direcção, uma pétala de uma desfolhada papoila: vejo-a delicadamente pousar no meu ombro; sinto a doçura suave do seu toque aproximar-se ao meu ouvido; ouço-a num purpúreo murmúrio, como quem pergunta: Hummm, se os sentimentos não se lêem, porquê é que é tão valorizado o que se escreve...porquê é que são tão apreciadas as cartas de amor? E, com a pergunta da suave pétala acabadinha de atravessar a ombreira da porta do meu pensamento, este, sem muito reflectir e muito menos sem nada me perguntar formula, de imediato, uma outra questão: será que Álvaro de Campos afinal tinha razão ao afirmar que "Todas as cartas de amor são ridículas", ou sabia, a priori, que só as criaturas com sensibilidade para ouvirem os seus próprios sentimentos é que teriam a capacidade de ouvir o mistério das palavras escritas?

Entretanto, adormeci...

Sweet dreams...

Acordei...e, julgando-me segundo os meus pensamentos em detrimento dos meus sonhos, aqui estou eu a dar movimento à escuras teclas que tocam nos meus dedos e a dar início a algo que eu própria nem sei bem o que é...mas já que acordei, isto pode ser o despertar...a ver vamos! :)