segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

M...de Morte

Há já algum tempo que a morte não visitava a minha família, mas hoje, logo pela manhã e já longe do local do acontecimento, recebi a notícia de que a minha tia-avó, de 85 anos, havia sido visitada por essa única certeza da vida e, com essa mesma certeza mas para lugar incerto, havia partido.

A penúltima vez que vi a minha ti-avó foi numa cama de hospital – a primeira e única vez, em 85 anos, que esteve hospitalizada - muito doente e a implorar pela visita final que, por razões que desconheço, só chegou quase meio ano depois. No passado sábado voltei a vê-la, e hoje sei que foi a última vez que a vi, mas sei também que, mesmo sem mais a ver, vou continuar a olhar para ela e a "vê-la": sentada no sofá, com uma manta no colo, a pronunciar o meu segundo nome e a sorrir de tal forma que nada o que nós dizíamos (sobrinhas-netas: a mais velha e a mais nova) interferia na sua felicidade e no seu estado de êxtase…sim, em puro êxtase, foi como eu a vi - não tenho a certeza se não terá sido a primeira vez que a vi assim, mas tenho a certeza que foi a última.

Aurora, nome que lhe deram em 1924. Nascida numa pequena aldeia do interior - aldeia essa onde nasceu, cresceu e morreu. Dizem que, desde os seus 14 anos, viveu uma grande e longa história de amor. Mas talvez por ser uma “história de amor”, e como quase todas as histórias do género, era um “amor proibido”, um “amor impossível”. E, como é óbvio – porque não se tratava de Romeu e Julieta - o dito romance era muito mal visto e interpretado para a época e para os costumes das pessoas desse lugar, pelo que só passou a ser possível sob o véu da falsa moralidade e hipocrisia.

Mulher que viveu algumas alegrias, mas também muitas amarguras - amarguras essas já destinadas à sua vida ou que ela própria destinou para si – mas, mesmo resmungona e com alguns traços de tristeza que delineavam o seu rosto, era frequente ouvi-la cantar, principalmente nas desfolhadas ao luar, nas vindimas e na apanha da azeitona. Mulher que, segundo se sabe, nunca teve outro homem nem quis assumir qualquer compromisso, a não ser o compromisso que “assumiu” com o tal “amor proibido” e com a familia dele, e com quem ficou, aos olhos da sociedade, já só quase no final da vida dele.



Foi um ser humano que decidiu dedicar toda a sua vida ao trabalho e à família – à família de sangue e à família do seu amado (que bem poderia ser a mesma) - família essa que, mesmo sem o admitirem, por vezes emitiam juízos de valor sobre a sua vida amorosa, mas família essa que ela sempre ajudou, que ela nunca abandonou e, talvez por isso, com ela tenha permanecido até ao fim. Não posso dizer que era uma pessoa afectuosa, porque não o era, mas era uma pessoa cheia de amor para dar e dava-o, à sua maneira, mas dava. E por amor viveu e continuará a viver...não só na minha caixinha de recordações que é a minha memória, mas também como uma personagem muito importante da minha vida, da minha história!

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