segunda-feira, 28 de junho de 2010

C...de Carta

«Ophelinha pequena:

Como não quero que diga que eu não lhe escrevi, por effectivamente não lhe ter escripto, estou escrevendo. (...) Cheguei á edade em que se tem o pleno domínio das proprias qualidades, e a intelligencia attingiu a força e a destreza que pode ter. É pois a occasião de realizar a minha obra litteraria, completando umas cousas, agrupando outras, escrevendo outras que estão por erscrever. Para realizar essa obra, preciso de socego e um certo isolamento. (...) De resto, a minha vida gira em torno da minha obra litteraria - boa ou má, que seja, ou possa ser. Tudo o mais na vida tem para mim um interesse secundario: ha coisas, naturalmente, que estimaria ter, outras tanto faz que venham ou não venham. É preciso que todos, que lidam commigo, se convençam de que sou assim, e que exigir-me os sentimentos, aliás muito dignos, de um homem vulgar e banal, é como exigir-me que tenha olhos azues e cabello louro. (...) Gosto muito - mesmo muito - da Ophelinha. Aprecio muito - muitissimo - a sua índole e o seu caracter. Se casar, não casarei senão consigo. Resta saber se o casamento, o lar (ou o que quer que lhe queiram chamar) são coisas que se coadunem com a minha vida de pensamento. Duvido. Por agora, e em breve, quero organizar essa vida de pensamento e de trabalho meu. Se a não conseguir organizar, claro está que nunca sequer pensarei em pensar em casar. Se a organizar em termos de ver que o casamento seria um estorvo, claro que não casarei. Mas é provavel que assim não seja. O futuro - e é um futuro proximo - o dirá.
Ora ahi tem, e, por acaso é a verdade.
Adeus, Oplhelinha. Durma e coma, e não perca grammas.
Seu muito dedicado,
Fernando
29/9/1929»

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